Diário de uma mãe: o nascimento de Letícia Maria e os 45 dias no hospital

27/06/2016

 

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Na sala tocava a música de Roberto Carlos “Nossa Senhora”. Eu tinha dito a Diego: é importante que ela chore assim que nascer. Se ela chorar, saberemos que ela está bem. Ele estava mais nervoso do que eu. Eu segurava meu terço e estava estranhamente calma. Ansiosa, mas calma.

Seis minutos após o início da cirurgia ela nasceu e eu pude ver aquele exato momento. E então,  naquele segundo que o mundo parou para que eu olhasse para ela, ela chorou. E choramos todos três: eu, ela e Diego.

Um pouco antes eu havia perguntado para minha obstetra se poderia pelo menos sentir minha filha junto a mim, ter um momento para lembrar. Ela me disse que não sabia dizer, pois tudo dependeria de como Letícia nasceria. Mais uma vez Jesus e Nossa Senhora se fizeram presentes e ela nasceu bem, com apgar 8/9, excelente para as 32 semanas de gravidez. E assim eu pude sentir um rostinho quente junto a mim por alguns segundos. E aquele toque de um amor sem tamanho foi minha única lembrança de contato por 2 dias. Ali, Letícia se tornou Letícia Maria. Sim, eu fiz uma promessa a Nossa Senhora que se minha filha nascesse bem, eu daria a ela o seu nome. E assim o fiz. Minha Maria é uma homenagem àquela que nunca me desamparou.
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Não tive decoração no quarto da maternidade, não quis visitas, não tive resguardo e nem me importei com as dores que senti no pós-parto – e eu senti aquela cefaléia pós-raqui que me deixou incapacitada de andar, mas eu fui de cadeira de rodas ver minha filha. Eu só queria ficar junto dela, que estava na UTI Neonatal. E eu só pude vê-la no dia seguinte, e continuei a vendo por poucas horas, sem poder segurá-la, nas primeiras 48 horas. Ela estava bem, estável, mas precisava de cuidados especiais por ser pequenininha e ter os órgãos ainda imaturos devido a prematuridade.
Peguei Letícia no colo apenas no terceiro dia depois que ela nasceu, e aquele foi o momento mais emocionante que já tivemos. Chorei copiosamente com aquela pequenina nos meus braços, e agradeci a Deus por me dar a oportunidade de tê-la comigo. Eu não vou esquecer jamais daquele dia.
Então eu recebi alta do hospital e aquele foi um dos dias mais difíceis dos 45 que viriam a seguir: voltei para casa sem minha filha nos braços, apenas segurando um quadro da porta da maternidade. Pendurei o quadro no quartinho dela, aos prantos, fechei a porta e não tive coragem de voltar naquele cantinho que havia preparado com tanto amor nos outros 40 dias seguintes.
Mergulhei num mundo novo, de rotina de hospital, aparelhos, nomes estranhos. Me fechei para tudo o que não dissesse respeito àquele momento, nem minhas amigas ou família conseguiam falar comigo direto – eu queria entender tudo o que eu pudesse sobre prematuridade, sobre como poderia ajudar minha filha a se desenvolver e vencer aquela etapa. Me enfiei no hospitalàquela altura Letícia não estava mais na UTI, mas na Unidade de Cuidados Intermediários, a UCIN – e só saí para almoçar, jantar e dormir. E começar tudo novamente no outro dia. No pouco tempo que tinha antes de dormir de cansaço, li artigos, sites, depoimentos, tudo o que encontrei sobre bebês prematuros. Aprendi muita coisa e tentei colocar em prática. Aquele era o único assunto que me interessava e enquanto o Brasil inteiro parava para assistir a presidente sofrer um impeachment, eu era a única que simplesmente não me importava.
Foquei em ordenhar meu leite para a minha filha e aprendi muita coisa sobre amamentação – contei com a ajuda em casa das queridas enfermeiras do Dicas da Cegonha, Tati e Marcela, e também das técnicas de enfermagem Synthia e Silene do banco de leite do hospital da Unimed aqui em João Pessoa. Minha filha tomou muito leite materno devido à ajuda delas e a minha perseverança – sim, eu tinha muito leite no começo. E eu fiz amizades naquela salinha do hospital, onde as mães se encontravam. As outras “mães de uti” viraram minhas melhores amigas –  umas entendiam as outras, incentivavam, apoiavam, “conversavam a mesma língua”.
Os dias foram de paciência (ou falta dela), muita oração e fé. Lógico que era muito difícil e cansativo passar o dia inteiro dentro do hospital… eu chegava em casa muito cansada física e emocionalmente, chorava, me questionava, me culpava… mas depois de uma noite de sono e oração, encontrava forças para me levantar no dia seguinte e seguir novamente.
E sim, houve momentos em que minha fé esteve abalada, mas foi exatamente ali que Jesus me carregou em seus braços. Alguém já leu “Pegadas na Areia”? Aconteceu comigo. Quando eu me perguntei “Por quê me abandonastes na hora mais difícil?”, Jesus respondeu no íntimo do meu coração:
“Eu te amo e jamais te deixaria nas horas da tua prova e do teu sofrimento.
Quando vistes na areia, apenas um par
de pegadas, foi exatamente aí que EU,
nos braços…Te carreguei.”
E assim Ele me carregou por 45 dias, e Maria  foi a Mãe de minha filha enquanto eu não pude ser.
Encontrei anjos nesse caminho tortuoso: meu marido, Diego, que segurou minha mão em TODOS os momentos que eu fraquejei. Ele foi uma rocha de fé e força que amparou nossa família nesses dias e eu agradeço a Deus todos os dias por tê-lo ao meu lado. Sem ele eu simplesmente não teria conseguido.
Tive mais anjos: médicos, enfermeiras, técnicas de enfermagem. As meninas foram imprescindíveis para a evolução de Letícia. Cuidaram com carinho e amor da minha bebê (e de outros bebês que lá estiveram). Criaram laços de afeto com ela, comigo. E vice-versa. Não esquecerei dos plantões das meninas: Jane, Suzana, Isabella e Zodja. Não esquecerei de Neide, Isabelle, Francisca, Ozani, Uedja, Simone, Maria, Rosa, Elieuda, Roseane, Inês e Waldira. Não esquecerei das palavras de apoio, das histórias que elas contavam de tantos e tantos bebês prematuros que já haviam saído de lá e estavam fortes e saudáveis em casa. Não esquecerei dos lacinhos de gaze que Wedja fazia para minha filha…  Nem posso deixar de agradecer às psicólogas, fisioterapeutas, nutricionistas, e fonoaudióloga – todas fazendo seu melhor para conquistarem a tão sonhada “alta” de cada bebê ali. Que trabalho lindo e valoroso elas desenvolvem!
Agora tudo passou. Parece um sonho distante mas que ainda me arranca lágrimas como essas que agora escorrem no meu rosto ao relembrar todo o caminho pelo qual percorremos. Difícil, mas de muito aprendizado. De renovação de fé. Minha Letícia Maria é a prova do Deus vivo em minha vida, e eu O louvo e agradeço por isso.
Assim como agradeço de coração a todos que oraram por ela, que se preocuparam. Que mandaram mensagem. Que torceram. Deu certo. Estamos juntos em casa sob as bênçãos de Deus. Muito obrigada.
Rê e Lê
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Foto: Thayse Gomes

21 respostas para Diário de uma mãe: o nascimento de Letícia Maria e os 45 dias no hospital

  1. Yane diz:

    Renata, é impossível não sentir a dor que você sentiu, sem querer as lágrimas rolam sem parar em meu rosto, quantas vezes achamos que temos problemas, e não damos o real valor a essa palavra! belíssima promessa!

  2. Helga lyra diz:

    Sua garra, sua fé e o seu amor foi o combustível mais valioso para que essa pequena princesa tivesse força para superar essa etapa, Rê! O amor de Deus e a proteção da nossa mãe maior, Maria, é maravilhoso. Eles nunca nos abandonam, e sua família, esposo e amigos tornaram essa fase ainda mais forte com todo apoio, paciência e perseverança. Que todas as bençãos sejam infinitos para essa pequena tão linda e amada e você seja essa eterna mae forte e guerreira! Beijo em vocês.

  3. Bruna diz:

    Deus é fiel, Renatinha! Pra Ele tudo é possível, grandes coisas Ele preparou para aqueles que Nele crê! Fico imensamente feliz em ver que Letícia está bem!
    Bjo bem grande em vcs!
    Bruna Barbalho

  4. mARCELA MACIEL OLIVEIRA diz:

    EMOCIONADA! LENDO CADA PALAVRA SUA, REVIVI O QUE TAMBÉM PASSEI COM MEU PEQUENO jOÃO, NUMA UTI NEONATAL… PARABÉNS PELA SUA FÉ E SOBRETUDO PELA FORÇA EM SUPERAR TUDO DA MELHOR FORMA, QUE É COM JESUS E MARIA SANTÍSSIMA SENDO NOSSOS REFÚGIOS. SAÚDE A LETÍCIA E MAIS ALEGRIA A TODA A FAMÍLIA!

  5. Moiseth diz:

    Temos um Deus lindo e uma doce MÃE ao nosso lado! Bênçãos sobre este novo tempo Rê! Tenho convicção da maturidade espiritual que essa experiência gerou em vc! Abraço fraterno.

  6. Pri mendes diz:

    Deus é fiel renata. LETICIA é a prova disso. Feliz pelo desenvolvimento dela e pela felicidade de vcs.. bju grande

  7. Jan diz:

    Que Relato mais lINdo! Me emocIonei. Um bj em vcs duas. Jan

  8. Mariângela diz:

    Renatinha, que depoimento mais lindo… presença de Deus na vida da sua família, tudo isso explica pq vc é sucesso em tudo que faz, vc é ungida por Deus!! #acabadadechorar

  9. Nina Rosa diz:

    Que lindo….me emocionEi,parabens rê!!!Leticia é linda.Que Deus ilumine e proteja vcs.bjo

  10. Daniele dias diz:

    Lindo testemunho de Fé! Que Deus continue abençoando cada dia mais

  11. Ana emília diz:

    Impossível não se emociOnar com sua história, e não relembrar Os momentos semelhantEs aos seus. Meu bb tb nasceu prematuro 31 semanas, 15 dias na UTi e hJ para honra e glória do Senhor tem 1 aninhO é Lindo e super saUdável!
    Deus abencoe LetÍcia e su famÍlia!

  12. Anna claudia diz:

    O hospital da unimed joao pessoa foi minha casa por longos 107 dias, quando minha filha nasceu com 26 semanas, há 3 anos e 4 meses. Todos os anos comemoramos duas datas de aniversario (a de nascimento e a de alta). Apenas quem já passou pOr aquele corredor comprido ate a Porta da uti neo, oranDo e com medo de como estara seu bebe sabe o tamanho Da força interna que precisamos ter. Ninguém tem essa forÇa toda sozinha… Ela vem da nossa pequena, vem do nosso marido, de nossa mae, pai… E vem, principalmente, de deus!
    Essas amizades de uti neo ficam… Essa semana mesmo enContrei com duas mães de bbs “coleguinhas” da mInha Bella e a conversa parece não ter Fim… É uma delicia Ver esses pequenos brincando e conversando entre eles, sem nem saber que juntos passaram pOr momentos tao difíceis.
    Muita saúde para sua pequena… Que ela cresca com muita saúde.

  13. RENATA RAMALO diz:

    que depoimento emocionante, de chorar!!! que Deus continue a fortalecer a sua fé abençoar você e toda a sua família!!!!

  14. Eryka diz:

    Olá Reu, Acompanhei sua gestação pelo insta, vc tinha o mesmo tempo de gravides que eu…o nome Escolhido POr vc para sua princesa e o nome da minha primogenita…desejeI demais a recuperaÇão de sua Leticia mesmo sem saber o que ocorria de fato com ela!

    Que historia emocionante e cheia de amor e fé!!! Fui as lagrimas…
    Deus as abençoe PodeRosamente!!
    Agora a sua alegria e plena, Deus é fiel!!!!!

  15. Dalliana grisi diz:

    Que linDo, renatinha!! Uma hiStória de superação que muito emociona, subretudo quem é mãe, e sabe o tamanho desse amor que a tudo renuncia e abdica… Que Deus continue abEnçoando a vida de Letícia Maria e de toda a sua família!!

  16. Lígia Nóbrega diz:

    Impossível não se emocionar. Que Deus abençoe a vida da sua filha!

  17. Katia Kelly diz:

    e eu travo um imenso no na garganta e lagrimas aos olhos,como jesus é bom e quao feliz é a quem ele se confia,renata leva pra tua vida essa fé que renasce na tua casa com nascimento da tua filha,faz nascer no coracao dela e rega a cada dia,esse amor e admiracao que tu tens pela mae de jesus e tenho certeza que serao nessa e em outra vida se assim houver eternamente felizes. Amo a Jesus e maria e fico tao feliz em ver pessoas “publicas” como voce nao se envergonhar de declarar este amor. Sou mae minha filha tem 1 ano e um mes e se chama maria beatriz…maria tambem por devocao e admiracao a mae do nosso senhor jesus.bjus

  18. Paula diz:

    Muito emocionada com o seu depoimento. Estou grávida c 29 semanas e estou de repouso, pois já estou tendo contrações. Sinto que cada semana que minha filha Maria Helena, continua em
    meu ventre é uma vitória. Que Deus abençoe grandemente sua LÊ e toda sua família.

  19. Allana Lopes diz:

    Deus é bom o tempo todo. Ele nunca nos abandona. Fui às lágrimas com essa história de amor e fé. Que nossa senhora continue cobrindo sua família com seu manto sagrado. Bjs!!

  20. Adriana diz:

    Oi Rê, qual leite você dá pra Letícia?
    Estou dando Aptamil 1 pra minha Luiza.

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